13 fevereiro 2008

TIÃO ROCHA

Folha de S. Paulo, 26 de novembro de 2007
ENTREVISTA DA 2ª/
TIÃO ROCHA Vencedor do Prêmio Empreendedor Social 2007 desenvolve desde 1984 formasdiferentes para a criança aprender brincando
"Essa escola formal não serve para educar ninguém"

"A ESCOLA formal não está só na forma. Está dentro da fôrma. O pior é quando está no formol. É um cadáver." É assim que o educador mineiro Tião Rocha, 59, vê o ensino convencional, de cujos métodos e conteúdos se afastou há mais de 20 anos para experimentar processos alternativos de educação. À frente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento desde 1984, Rocha sempre persegue "maneiras diferentes e inovadoras" de educar, alfabetizar, gerar renda.
Ele distingue educação de escolarização e busca um sonho: escolas que sejam tão boas que professores e alunos queiram freqüentá-las aos sábados, domingos e feriados.
"Se ninguém fez, é possível", diz.
UIRÁ MACHADO COORDENADOR DE ARTIGOS E EVENTOS
FOLHA - Toda a sua história como educador é feita do lado de fora das escolas formais. Por quê?
TIÃO ROCHA - Se eu tivesse um analista, isso seria um prato cheio para ele. Comecei a ter problemas com a escola desde que entrei, aos sete anos. Logo no primeiro dia de aula, a professora leu um livro: "Era uma vez um lugar muito distante, onde havia um rei e uma rainha (...)". Eu levantei a mão e falei: "Professora, tenho uma tia que é rainha". Ela me mandou calar a boca. Depois que a interrompi duas ou três vezes, fui para a sala da diretora. A partir daí, eu sempre inventava coisa para matar a aula. Nunca tive uma escola boa. Nunca tive prazer na escola, mas sempre quis aprender. Quando fui para a faculdade, estudei história e antropologia, fui resgatar a história da minha tia, que era rainha do congado. Para pagar os estudos, eu precisava trabalhar. Fui dar aula e me dei conta de que, se eu achava aquilo chato, meus alunos também, porque eu era um reprodutor da mesma chatice.
FOLHA - E conseguiu mudar?
ROCHA - Criava jeitos diferentes de trabalhar com os alunos, inovava, mas, no fim, era uma experiência muito reformista. Ela começou a ser transformadora quando aconteceu o fato com o Álvaro, minha primeira grande perda [o garoto, excelente aluno, se suicidou]. Aí eu falei: "Opa! Não adianta querer que os meninos aprendam história se eu não consigo aprender a história da vida deles". Comecei a deixar de lado não só a forma mas também o conteúdo. Fui me libertando dos conteúdos cheirando a mofo e vi que estava partindo para outra coisa. Esse processo foi evoluindo na reflexão sobre o que é deixar de ser professor e virar educador. O professor ensina, o educador aprende.
FOLHA - O sr. começou seus projetos fora da escola, debaixo do pé de manga. O sr. acha que a escola formal serve para alguma coisa?
ROCHA - Ela serve para escolarizar. Dá um determinado tipo de informação e de conhecimento que atende a um determinado tipo de demanda, um determinado tipo de modelo mental de uma sociedade que aceita, convive e não questiona.
FOLHA - Essa escola educa?
ROCHA - Não. Ela escolariza. Uma coisa é falar em educação, outra é falar em escolarização. A maioria das pessoas que estão cometendo grandes crimes é escolarizada. Então, que escola é essa? Para que ela serve? Não é para educar. E essa escola continua sendo branca, cristã, elitista, excludente, seletiva, conformada. Ela seleciona conteúdos, seleciona pessoas, mas não educa.
FOLHA - O que significa ser branca?
ROCHA - Por exemplo: eu nunca tive aula sobre os reis do Congo, mas tinha aula sobre todos os Bourbons, reis europeus.
FOLHA - E conformada?
ROCHA - A escola não permite inovação. Ela é reprodutora da mesmice. A escola formal não está só na forma. Ela está dentro da fôrma. O pior é quando ela está dentro do formol. É um cadáver. O conteúdo da escola está pronto. Os meninos que vão entrar na escola no ano que vem, independentemente de quem sejam, de suas histórias, aprenderão as mesmas coisas. Recentemente, uma menina de nove anos, lá em Curvelo, virou para mim edisse: "Tião, vou ter prova e esqueci o que é hectômetro". Eu disse a ela que ninguém precisa saber o que é isso, que não se preocupasse, isso não cairia na prova. Mas caiu. Agora, criança de nove anos tem que saber isso? Do ponto de vista da escolarização, vai tudo bem. Se está educando ou não, ninguém discute.
FOLHA - Como deveria ser a educação?
ROCHA - Um projeto de vida, não de formação para o mercado. A lógica da vida não é ter um emprego. Ter analfabetos não pode ser um problema econômico, é um problema ético. A experiência que a gente vem desenvolvendo no CPCD é saber se é possível fazer educação de qualidade. Claro que é. Só que você tem que botar uma pergunta que a gente sempre faz. É o MDI: "De quantas maneiras diferentes e inovadoras eu posso"... O resto você completa com uma ação: educar, alfabetizar, diminuir a violência.
FOLHA - Até onde vale criar soluções?
ROCHA - Na educação, qual é a melhor pedagogia? É aquela que leva as pessoas a aprender. Na escolarização, a melhor pedagogia é aquela que dá mais sentido para quem a aplica. O CPCD foi secretário da Educação de Araçuaí(MG). Os meninos demoravam duas horas no ônibus. Então colocamos educadores no ônibus. Toda secretaria de Educação pode fazer. É só sair da caixa. Uma outra questão é o acesso aos livros. Eu me perguntei se os livros perderam o encantamento ou se foi a escola que não soube mantê-los encantados. Juntei um monte de livros em baixo da árvore e mandava a meninada ler. Em volta, deixava montinhos de sucata e escrevia uma placa: música, teatro, artes plásticas, literatura. Tudo que o menino lesse, tinha que ir numa direção e fazer música, teatrinho etc. É um jogo. Ler e transformar, do seu jeito. Eles ficavam lá a tarde inteira. Vinha gente de longe. Por que esses meninos nunca tinham entrado numa biblioteca da escola? Porque eles não tinham prazer. Quando iam ler um livro, tinham que dissecar a obra, responder a perguntas.
FOLHA - Como mexer no conteúdo do ensino? Tem um conteúdo básico?
ROCHA - Claro. Tem que ter alguma coisa para começar. Precisa aprender os códigos de leitura, raciocinar e fazer cálculo, as quatro operações básicas. Mas não precisa saber o que é hectômetro. Há uns 20 anos, tinha um projeto do governo para combater a doença de chagas no sertão. Iriam construir casas de cimento no lugar das de adobe. O adobe resolve bem a questão térmica, o cimento, não. Mas os engenheiros disseram que não sabiam fazer casa de adobe de qualidade. Fiquei imaginando: eles não foram formados para fazer casas dignas para a população. Querem fazer em São Paulo e no sertão uma casa do mesmo tipo. Que lógica é essa? É a lógica do modelão.
FOLHA - O sr. é a favor de uma pedagogia específica para cada pessoa?
ROCHA - Não. O que não pode é aprender uma única coisa, todo mundo igual, dar pesos desiguais, negar ou excluir coisas em função de critérios que são ideológicos. Mas não é "cada um faz o que quer". É possível criar uma sociedade polivalente, diversificada? É, porque não foi feito ainda. Se ninguém fez, é possível. Isso é o que eu chamo de utopia. Utopia para mim não é um sonho impossível. É um não-feito-ainda, algo que nunca ninguém fez. É possível aprender brincando? Vamos ver. A gente aprende fazendo. Aí eu coloco um indicador: a escola ideal deve ser tão boa que professores e alunos desejem aulas aos sábados, domingos e feriados. Hoje, temos exatamente o contrário.
FOLHA - Como nasce uma nova forma de ensinar?
ROCHA - Da dificuldade ou da pergunta. Somos movidos por uma pergunta, que vira um desafio, que vira uma encrenca. É possível educar debaixo do pé de manga? Vamos ficar pensando ou vamos aprender fazendo? O nosso verbo é o"paulofreirar", que só se conjuga no presente do indicativo: eu"paulofreiro", tu "paulofreiras" e por aí vai. Não existe "paulofreiraria", "paulofreirarei". Ação e reflexão, agora. As respostas vão sendo testadas e viram novas metodologias, pedagogias. Assim surgiu a pedagogia da roda, um jeito de combater a evasão dos meninos.
FOLHA - Seus métodos são tão abertos a ponto de aceitar que uma criança queira aprender na escola formal? Ou você quer acabar com a escola?
ROCHA - Eu não quero acabar com a escola. Ela é muito mais importante do que parece. Mas ela precisa ter a ousadia de experimentar. É uma lástima dar às crianças só o que a escola formal oferece. É muito pouco. As pessoas querem tirar os meninos da rua e levar para a escola. Por que, em vez de tirar da rua, não mudamos a rua? Lugar de criança é na escola, na rua, em todos os espaços. Todos os espaços podem ser de aprendizado. Há experiências de cidades educativas muito legais.
FOLHA - Como é sua relação com os governos?
ROCHA - Eu não vejo muita diferença. Todos eles estão dentro da mesma caixa, só muda a cor. A escola que tem agora não é muito diferente da de oito anos ou 20 anos atrás. A gente não consegue estabelecer alianças com os governos porque incomoda pensar fora da caixa. Então a gente vem aprendendo a fazer política pública não-governamental.
NA INTERNET: Leia mais trechos da entrevista com Tião Rocha em www.folha.com.br/073271
Saiba mais sobre a origem e funcionamento dessas pedagogias em
www.folha.com.br/073272

03 dezembro 2007

Rosely Sayão - A escola falida

Hoje a escola chama os pais até para dizer que o filho não presta atenção na aula... Lembro de uma mãe italiana que me procurou indignada com isso... Nas palavras dela: "Afinal somos nós ou elas as profissionais do ensino?... Eu não sei o que fazer para minha filha prestar atenção na aula dela!"
E aqui não há escola pública x particular! As duas sofrem do mesmo mal...

No texto abaixo, Sabatina na Folha, Rosely Sayão dá uma boa explicação para o mal funcionamento das escolas: falta de profissionalismo!

Vera Vaz


Folha de S. Paulo 30 de novembro de 2007

Sabatina Folha - Rosely Sayão

Qualquer coisa é melhor que a escola formal de hoje; pior não ficaPara psicóloga, o atual modelo de ensino está falido ; escola se preocupaque alunos aprendam conteúdo em vez de priorizar o conhecimento

CLÁUDIA COLLUCCIDA
REPORTAGEM LOCAL


O ATUAL MODELO de ensino está falido e parte dessa situação deve-se ao fato de a escola ter se aproximado tanto do estilo de vida familiar que acabou adotando um modo administrativo leigo em detrimento de condutas educacionais profissionais, baseada em teorias e metodologias.A afirmação é da psicóloga e consultora em educação Rosely Sayão, durante sabatina realizada ontem pela Folha.
Para ela, "qualquer coisa" é melhor doque a escola formal de hoje. "Pior que está não fica. É preciso encontraralternativas ao ensino falido existente em 98% das escolas privadas e públicas."
Para a psicóloga, a aproximação entre escolas e famílias está fazendo com que as crianças tenham um tipo de educação muito parecida. "Hoje,professores e pais pensam e agem de maneira muito semelhante. E os pais estão desnorteados porque as referências educacionais se multiplicaram."

ESCOLA
A escola hoje não serve para educar. Nem para educar para vida pública e muito menos para educar para a relação de conhecimento. A escola está mais preocupada que seus alunos aprendam conteúdo do que com a postura que deve ter para se relacionar com o conhecimento. Até o quinto ano do ensino fundamental, a gente deveria ensinar o que é ser aluno, o que é ter colegas,o que é agir coletivamente, quais as posturas físicas e mentais para se relacionar com o conhecimento. Hoje a gente tem uma grande dificuldade detrabalhar isso. Espera-se que o aluno chegue sabendo o que é ser aluno. Eles chegam filhos e a escola continua a tratá-los como filhos.A escola se identificou muito com a família e perdeu seu caráter profissional. Ela se molda aos seus alunos e aos pais de seus alunos. Tem dificuldade de estabelecer uma conduta profissional baseada em teorias e metodologias e vai muito no agir educativo dos pais, que são leigos, e a escola não deveria ser leiga. Hoje, professores e pais pensam e agem demaneira muito semelhante.


VIDA FAMILIAR
É uma grande bobagem tentar adequar a escola ao estilo de vida familiar.Isso restringe muito os contatos, as relações, o tipo de visão que a criança tem do mundo. Restringe muito a ponto de impedir uma vida democrática, no ponto de vista das relações. Cada vez mais as crianças ficam submetidas a um tipo de educação muito parecida. A partir dos anos 90, a escola começou aanunciar que ela era a segunda casa, a segunda família dos alunos. Se umafamília já dá trabalho, imagine duas. A grande questão é: nós vamos dar chance para as crianças aprenderem a conviver com as diferenças ou vamoscada vez mais colocá-las em clubes privados onde todos são semelhantes? Nabusca de uma vida mais democrática, colocar a criança em uma escola onde hádiversidade é o primeiro ponto. A função da escola é fazer a passagem da vida privada para a vida pública.


SELEÇÃO DE ALUNOS
Seleção de alunos é um absurdo. Na verdade, é selecionar o perfil de aluno que cabe dentro da minha escola, é preconceituoso. O aluno diferente, não importa a diferença que seja, ele não cabe dentro desse clube. Por lei, essa seleção não é permitida, mas as escolas continuam fazendo e os pais se submetem. Acho uma loucura. A gente já vê no presente algumas conseqüências disso. A vida pública é cada vez mais privada, jovens adultos evitando o contato das pessoas nas ruas.


SUPERPROTEÇÃO
Nas últimas décadas, os pais se incumbiram de uma missão impossível, que é proteger os filhos da vida. Nesta busca de proteção, têm cometido equívocos sérios, que comprometem o objetivo fundamental da educação, que é viver com autonomia. Os pais ensinam os filhos que eles têm muitos direitos e poucos deveres.Traçar um equilíbrio entre o cuidar e proteger é a questão. Não adianta a gente tentar proteger, proteger, porque na hora que eles saem, e eles saem queira a gente ou não, esse é o mundo em que eles vão viver. O mundo estáperigoso, mas sempre esteve perigoso para os pais. É claro que o mundo mudou muito. Mas devo ensinar a saber reconhecer os riscos, a saber se proteger sem revidar etc.


SEXUALIDADE
Quando chega na adolescência, o grande acontecimento da vida é a descobertada sexualidade. O jovem tem corpo de adulto e, portanto, pode desfrutar desse mundo da sexualidade. A idéia que fica é que eu desfruto, mas, se eutiver um problema antes ou depois, alguém resolve para mim. É fundamentalque cada um de nós tenha uma vida sexual saudável. Mas há o limite entre o privado e o público, o que diz respeito à intimidade e o que diz respeito ao convívio social. Por isso, é preciso demarcar bem essa fronteira. A funçãodos pais não é entrar nos segredos dos filhos. Aliás, tem coisas que é melhor não saber mesmo.A questão não é falta de informação [sobre sexo, gravidez ou doenças sexualmente transmissíveis]. O problema é que eles não têm maturidade para usar essas informações. Isso revela que estão chegando na vida sexual de modo absolutamente inconseqüente porque são imaturos e porque há adultos respondendo por eles.O jovem vê a sexualidade como performance corporal, têm dificuldade de encarar uma relação sem tomar um comprimido tipo Viagra ou Cialis. Achei que fosse insegurança, mas descobri que era garantia de diversão por horas, sem perder a ereção. É um parque de diversão, não é mais o contato de proximidade de intimidade com uma pessoa.


CONSUMO
O ideal de consumo hoje é maior do que qualquer coisa, provoca angústia,provoca tédio também. O ideal de consumo faz com que a pessoa queira consumir e não necessariamente desfrutar daquilo que conquistou. Ele quer,quer e depois que consome não sabe o que fazer com aquilo. Cresce assustadoramente o número de jovens que querem entrar na faculdade e depois não sabem o fazer com a faculdade, trocam de curso, abandonam. É mais difícil viver hoje porque não há adultos que estimulem essa visão crítica do jovem. Eles não pensam criticamente e também adoecem facilmente. Temos muitos jovens com depressão, o índice de suicídios tem aumentado muito entre os jovens adultos. O grau de insatisfação com a vida é muito grande. Eu devo isso ao ideal de individualismo.


MEDICAMENTOS
É um outro ideal. Nossa sociedade está absolutamente submetida à medicalização. É mais um elemento que leva a essa passividade na vida, como se as coisas se resolvessem por mim. Hoje, por incrível que pareça, há escolas que chamam os pais e os orientam dar ritalina [medicação usada para déficit de atenção com hiperatividade] aos seus filhos. É como se falassem:"Acalma o seu filho para eu poder trabalhar bem enquanto ele for meu aluno."Acho que a medicina ainda vai se redimir dessa medicalização. Hoje há muito estímulo à hiperatividade. Já que o mundo estimula, vamos conviver com issoe ensinar nossas crianças a controlar isso.PAISOs livros de auto-ajuda subestimam a capacidade dos pais. Não acho que os pais estejam perdidos, as escolas sim estão perdidas. Os pais estão desnorteados. Quando eu fui educada, todos os pais compartilhavam do mesmo norte. Hoje as referências se multiplicaram. Cada pai olha como vai educar seu filho e vê múltiplas referências. Eles ainda acreditam que há norte foradeles, mas o norte está neles. Não considero os pais perdidos. Eles se dedicam mais à educação dos filhos do que as escolas que os recebem.


LIMITE
Eu usei muito essa palavra e hoje sou contra o uso dela na educação. Todo mundo usava essa palavra e não falava-se em desobediência. Recebi um dia uma mãe desesperada porque a filha, de três anos, não tem limite algum, não aceita a autoridade dela. Se a gente aceita que o problema é deles, a gente ficará livre de qualquer responsabilidade. Criança não precisa de limite,precisa é de adulto. Eles não aprendem os limites porque, nós adultos, não exercemos bem nosso papel.


CASTIGO
Castigo em crianças com menos de cinco anos eu não entendo. Quando a criança com menos de cinco anos faz ou não faz o que deveria fazer é porque o adulto falhou. Nessa idade, a criança não compreende o castigo como fruto do comportamento que ela teve. A partir dos seis, sete anos, é possível colocá-lo de castigo mas não como mera punição com sofrimento. Mas como demonstração de que tudo o que você faz, traz conseqüências, às vezes boas,às vezes não. Em geral, hoje o castigo é dado muito no momento em que os pais perdem o controle das emoções e depois o sofrimento dos filhos faz com que os pais afrouxem o castigo. A gente erra do começo ao fim.

20 novembro 2007

30 mil professores faltam por dia em SP!!!!

Acho que as matérias dispensam meus comentários!....

Folha de S. Paulo

11 de Novembro de 2007

30 mil professores faltam por dia na rede pública de SP

Nos colégios estaduais, 19 dispositivos legais permitem ausência sem descontar salário

Falta diária é de 12,8% dos 230 mil professores; nas maiores escolas particulares de São Paulo, o índice de faltas é inferior a 1% ao dia; quase 30 mil dos 230 mil professores da rede estadual de ensino paulista faltam às aulas diariamente, segundo dados oficiais de 2006

FÁBIO TAKAHASHIDA REPORTAGEM LOCAL

Todos os dias, quase 30 mil dos 230 mil professores da rede estadual deensino paulista faltam às aulas, e, amparados pela lei, a maioria não perde nenhum centavo dos seus vencimentos. O número significa uma ausência diáriade 12,8%.Dos 30 mil, menos de 2.400 têm faltas que acarretam perda de salário,segundo dados oficiais de 2006. Os docentes contam com 19 dispositivoslegais que lhes permitem se ausentar sem desconto no salário, entre os quaislicença médica, licença-prêmio (por assiduidade) e falta abonada por "motivo relevante" (seis ao ano neste caso).

Em um desses mecanismos, o professor pode, no limite, faltar 100 dos 200 dias letivos, desde que apresente atestados médicos e que as ausências não sejam em dias seguidos.

"Todos conhecem um médico que pode dar o atestado", disse o presidente da Udemo (representante dos diretores de escolas), Luiz Gonzaga Pinto, que defende melhores condições de trabalho aliadas a mudanças na lei. "Não estoudizendo que os professores abusam. Mas sempre há aqueles que buscam as brechas."

A Secretaria da Educação do governo José Serra (PSDB) classifica o índice como "preocupante". Diz que um pacote voltado aos docentes incentivará a diminuição nas faltas. A secretária Maria Helena Guimarães não quis dar entrevista. Em nota, a pasta diz que o plano traz benefícios como o pagamento em dinheiro de 30 dos 90 dias de licença-prêmio e antecipação do bônus de merecimento (que considera, basicamente, a assiduidade).

Estudos nacionais e internacionais já apontaram que há relação entre absenteísmo dos docentes e perda de aprendizagem. Nos maiores colégios particulares de São Paulo, o índice de faltas é inferior a 1% ao dia, como no Bandeirantes e no Etapa - onde, dos cem professores, em média, apenas dois registram alguma falta no mês.

"A legislação na rede pública é muito permissiva", afirmou o promotor da Infância e Juventude da capital Motauri Ciocchetti de Souza, que investigaas causas das ausências.

Já os professores dizem que as faltas são reflexo de más condições detrabalho. "Com jornadas extenuantes, classes superlotadas, o professor adoece, precisa ir ao médico ou se afastar", disse o presidente da Apeoesp (sindicato dos docentes), Carlos Ramiro de Castro.

A rede possui 17.358 docentes eventuais, chamados para substituir faltas. A secretaria diz que eles "são preparados", mas "é de se esperar" que tenham dificuldades com turmas novas. Por isso, estão sendo criadas referências de aulas.


Folha de S. Paulo

11 de novembro de 2007

Apeoesp diz que doenças são causa de falta

Apeoesp afirma que, com salários baixos, longas jornadas, salas lotadas eviolência, os professores tendem a adoecerEstudo feito em conjunto com o Dieese aponta que 61% dos professores dizemsofrer de nervosismo e 44% apresentam angústia DA REPORTAGEM LOCAL O presidente da Apeoesp (sindicato dos professores), Carlos Ramiro deCastro, afirmou que, com salários baixos, longas jornadas, salas superlotadas e violência na escola, os professores tendem a adoecer e, por isso, precisam faltar.Para sustentar a argumentação, Castro cita um estudo feito pela Apeoesp, em conjunto com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), que apontou que 61% dos professores dizem sofrer de nervosismo, 57% têm falhas na voz e 44% apresentam angústia.A pesquisa, publicada neste ano, entrevistou 1.780 docentes em novembro de2003.

"Nessas condições, o professor adoece. E, como ele tem de fazer jornada tripla, se precisa ir ao médico, muitas vezes, tem de faltar", disse Castro, que é suplente do senador Eduardo Suplicy (PT-SP). "O professor precisa ter melhores condições de trabalho e um bom salário para poder diminuir a jornada."

O salário inicial da rede estadual de São Paulo é de R$ 1.295,76, para uma jornada de 30 horas semanais.

Reportagem da Folha publicada no mês passado mostrou que o valor por hora da rede paulista é apenas o 10º maior do país.

Castro lembra que o corpo docente da rede é formado majoritariamente por mulheres (80%). "Elas têm de fazer exames médicos específicos. E, quando o filho adoece, geralmente é ela quem vai cuidar." O sindicalista diz ser contrário a mudanças na legislação.

Docentes também reclamam. "O professor não é valorizado, entra em depressão,tem problemas na voz. Eu estou desmotivado", diz um docente de uma unidade do Capão Redondo (zona sul de SP).

Se não há consenso para as razões do absenteísmo, os efeitos são conhecidos. Vinícius Rodrigues Dantas, 17, por exemplo, se diz uma das vítimas. Aluno do terceiro ano do ensino médio de uma escola estadual na Cidade Ademar (zona sul), ele conta que "quase todo dia falta um professor".

"Geralmente, os substitutos não fazem nada, deixam a gente conversando",disse ele, que decidiu não prestar vestibular neste final de ano. "Sei quenão vou conseguir passar."

Estudo de Tufi Machado Soares, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG),mediu o peso das faltas dos professores. Alunos da quarta série da rede estadual de Minas que estudam com professores que faltam muitas vezes tiveram média de 187 pontos em testes de língua portuguesa, ante 202 daqueles cujos docentes são assíduos. Os dados têm como base o exame mineiro de avaliação, aplicado em 2002. (FT)


Folha de S. Paulo

13 de novembro de 2007

Editorial

Mestres em falta

Salários são baixos, mas isso não justifica as 32 faltas anuais por professor no sistema estadual de São Paulo

OS SINDICATOS de professores se contorcem diante da questão, talvez por não ter satisfação adequada para dar a alunos e pais diante do descalabro instalado: só na rede estadual paulista de ensino ausentam-se das salas de aula, a cada dia, 29,4 mil dos 230 mil mestres. Uma taxa de absenteísmo de12,8%, contra menos de 1% em escolas privadas. O dado, noticiado domingo nesta Folha, documenta distorção disseminada por sistemas públicos de ensinodo Brasil.A Apeoesp (sindicato dos professores) oferece racionalização automática para o sumiço de seus representados: salários baixos, longas jornadas, salassuperlotadas e violência na escola.

Embora o argumento possa explicar em parte a atitude, jamais terá o poder de justificá-la.

A depreciação do magistério alcança patamares incompatíveis com a meta do governo federal de elevar o ensino básico, até 2022, ao nível de países da OCDE (clube das nações mais ricas). O Plano de Desenvolvimento da Educação(PDE) contemplou isso ao propor um piso nacional de R$ 850 para professores.O projeto de lei correspondente (nº 619/2007) foi aprovado em duas comissões da Câmara dos Deputados (faltam outras duas); na de Educação e Cultura, o valor subiu para R$ 950.Essa política horizontal de recuperação de salários é necessária, mas nãoresolve a questão. Ganhar um pouco mais não levará professores a tornar-se assíduos -a média dos proventos de mestres paulistas, por exemplo, é 53% superior ao valor proposto como piso para o país. Aumento salarial não garante melhora automática do ensino. É preciso exigir contrapartida dos professores. Reservar uma parte relevante do orçamento para premiar as escolas que mais reduzirem as faltas - e mais melhorarem o desempenho dos alunos- é um meio inteligente de perseguir esse objetivo.A via do estímulo, porém, não basta. Não há como conciliar o interesse público com a pletora de 19 dispositivos que facultam ao professor paulista ausentar-se do trabalho sem desconto no salário. Tampouco cabe aguardar condições perfeitas de trabalho para que se aceite, enfim, reduzir a absurda média de 32 faltas anuais por docente.

Regras permissivas de aposentadoria também requerem revisão. Não é razoável que inativos consumam 1/3 da folha de pagamento do professorado paulista.Verbas de educação precisam ser canalizadas, com prioridade, para a melhoriado ensino.Tal é o espírito do PDE federal. O MEC anunciou que investirá, ainda em2007, R$ 1 bilhão em apoio técnico e financeiro a municípios que adotaremmetas de desempenho (medido pelo Índice de Desenvolvimento da EducaçãoBásica, Ideb). Uma legião de 3.487 municípios e 17 Estados já formalizou adesão; das 1.242 cidades prioritárias, com Ideb muito baixo, 985 aderiram. Segundo o MEC, os primeiros desembolsos começam em dez dias. Seria útil que,entre os critérios de avaliação, figurassem também metas ambiciosas deredução do absenteísmo docente.